A despedida do Sepultura está cada vez mais próxima, mas, antes de escrever o último capítulo de sua história nos palcos paulistanos, a banda reservou um encontro especial com os fãs. Na quinta-feira, 5 de novembro, o Cine Joia recebeu aquele que seria o penúltimo show do grupo, chamado de The Last Ceremony, antes da despedida definitiva, marcada para este sábado, dia 07. Em uma casa mais intimista e sem grandes produções, o Sepultura mostrou que não precisava de telões, efeitos ou estruturas monumentais para incendiar seus fãs. Bastavam os músicos, seus instrumentos e um público colado ao palco, respirando o mesmo ar quente e disposto a viver cada segundo daquela noite.
A proximidade foi justamente um dos grandes diferenciais da apresentação. Sem divisões entre palco e plateia, os fãs puderam acompanhar de perto cada movimento, expressão e demonstração de entrega dos músicos. Do outro lado, Andreas Kisser, Derrick Green, Paulo Xisto e Greyson Nekrutman tiveram a oportunidade de sentir diretamente o calor de quem estava ali para celebrar uma história de 42 anos. A abertura já veio sem anúncio, sem cerimônia. “Arise”, “Dead Embryonic Cells” e “Desperate Cry” explodiram em sequência, e o Cine Joia, que já estava quente, virou um verdadeiro pandemônio na Terra.
O setlist passeou por diferentes momentos da trajetória do grupo
A temperatura, que já era elevada, parecia ter atingido níveis infernais. Rodas se formavam por toda a pista, pessoas pulavam, cantavam e, em meio ao caos, algumas chegavam a subir no palco, recuperando um pouco daquela atmosfera visceral dos primeiros anos do Sepultura. Depois da sequência inicial, Andreas Kisser agradeceu: “Obrigado, São Paulo! Muito obrigado por essa oportunidade de tocar aqui pela primeira vez no Cine Joia celebrando os 42 anos de Sepultura!”.
A resposta veio na forma de aplausos, antes de a banda preparar mais uma sequência histórica, agora com três representantes de Beneath the Remains (1989): “Beneath the Remains”, “Inner Self” e “Mass Hypnosis”. Esta última, ausente dos repertórios desde 2019, já vinha sendo solicitada pelo público antes mesmo de ser anunciada. Quando seus primeiros riffs apareceram, a pista voltou a entrar em ebulição, com rodas tomando conta do espaço e a energia alcançando outro patamar.
Encerrada a primeira sequência de clássicos, o setlist passeou por diferentes momentos da trajetória do grupo. Derrick Green aproveitou a oportunidade para agradecer a presença dos fãs, amigos e familiares que estavam naquela noite especial. “All Souls Rising”, faixa do EP The Cloud of Unknowing (2026), trouxe a sonoridade mais recente do Sepultura, embora não tenha provocado a mesma explosão das músicas anteriores. A temperatura voltou a subir com “Kairos”, clássico da fase Green, cantado com a força de quem sabe o peso da própria história.
Agradecimento a Derrick Green e Greyson Nekrutman
Mas uma das grandes surpresas da noite estava reservada para “Mind War”: Derrick assumiu novamente a guitarra, algo que não fazia havia quase duas décadas. Andreas brincou, em tom irônico, que havia sido contra a ideia, mas acabou voto vencido. A descontração, entretanto, não diminuiu a importância daquele momento. Andreas fez questão de enaltecer o companheiro, lembrando que Derrick chegou à banda em um dos períodos mais difíceis de sua história e foi fundamental para que o Sepultura continuasse sua trajetória até aqui. Foi um reconhecimento emocionante, especialmente diante da proximidade da despedida.
Sem qualquer anúncio, “Against” apareceu na sequência, resgatando o disco homônimo de 1998, primeiro trabalho de estúdio com Derrick Green. Ao final, Andreas destacou a importância daquele álbum para que a banda pudesse seguir em frente, enfrentando as adversidades e contrariando expectativas. Outro momento de reconhecimento aconteceu antes de “The Place”, também do EP mais recente.
O guitarrista não poupou elogios ao jovem baterista Greyson Nekrutman, que assumiu o posto pouco antes do início da turnê, em 2024, e demonstrou sua versatilidade ao transitar por universos tão diferentes quanto Sepultura, Charlie Brown Jr. e Exaltasamba. Com uma levada mais cadenciada, a música proporcionou um breve respiro para os fãs. Já “Means to an End”, do aclamado Quadra (2020), manteve a intensidade instrumental, mas não provocou uma reação tão expressiva quanto os grandes clássicos.
A calmaria, porém, estava com os minutos contados. Quando a introdução de “Breed Apart” começou, o Sepultura mergulhou de vez no universo de Roots (1996), iniciando uma sequência que colocou novamente o Cine Joia em ebulição. “Attitude” e “Dusted” foram recebidas com empolgação, acompanhadas por vozes que pareciam querer disputar espaço com os próprios instrumentos.
Sepultura celebrou sua história e capacidade de reinvenção
Era impossível não perceber a identificação do público com aquele repertório, responsável por apresentar a banda a uma geração inteira e também por ampliar suas fronteiras musicais. Na sequência, “Beyond the Dream” trouxe um contraste interessante. Com Derrick utilizando vocais limpos, a faixa assumiu ares de balada e ofereceu um necessário alívio depois de tanta intensidade. Mas a trégua durou pouco: “Territory”, um dos maiores hinos do grupo, fez todo mundo cantar e literalmente tirou os presentes do chão.
Antes de “Biotech Is Godzilla”, o público aproveitou a ocasião para entoar um sonoro “Ei, Bolsonaro, vai tomar no cu!”, em uma manifestação que se misturou à atmosfera de contestação historicamente associada ao Sepultura. A banda seguiu com a versão mais curta de “Orgasmatron”, do Motörhead, transformando o Cine Joia em um grande coro.
Na sequência, “Refuse/Resist” mostrou mais uma vez sua força atemporal. Cantada a plenos pulmões, a música trouxe de volta aquela combinação de agressividade, energia e identificação que sempre caracterizou a relação do Sepultura com seus admiradores. Enquanto as rodas continuavam em movimento, ficava cada vez mais evidente que ninguém queria desperdiçar a oportunidade de viver aqueles momentos. Afinal, embora ainda houvesse uma última apresentação pela frente, aquela noite tinha um significado particular: era uma das derradeiras chances de experimentar o Sepultura em sua forma mais direta e visceral.
O bis começou com um solo de bateria de Greyson Nekrutman. Dono de uma técnica impressionante e de muita personalidade, o músico teve seu momento de protagonismo, demonstrando por que foi escolhido para ocupar uma posição tão importante em uma turnê dessa dimensão. Depois, a banda retornou para “Ratamahatta”, e a reação foi a esperada. Com sua letra em português e a mistura característica de peso e elementos brasileiros, a música colocou novamente todos para cantar.
Era um daqueles momentos em que a distância entre músicos e fãs praticamente desaparecia, com a plateia assumindo parte da responsabilidade pela apresentação. Para fechar, não poderia haver escolha mais emblemática: “Roots Bloody Roots”. O maior clássico do Sepultura fez a casa tremer. Cada verso parecia estar na ponta da língua de todos os presentes, que cantaram com uma intensidade quase desesperada, como se aquela fosse realmente a última oportunidade de ouvir a música ao vivo.
Mais do que uma apresentação de despedida antecipada, o show no Cine Joia foi uma celebração da história, da resistência e da capacidade de reinvenção da maior banda brasileira de heavy metal de todos os tempos. A formação atual mostrou estar em plena sintonia, mesmo diante da inevitável emoção que envolve os últimos compromissos da turnê Celebrating Life Through Death.
Sem grandes produções, sem barreiras e sem a distância habitual dos grandes espetáculos, o Sepultura proporcionou uma noite em que a música falou mais alto. O Cine Joia permitiu que os fãs vissem de perto a entrega dos músicos, enquanto a banda pôde sentir cada grito, cada aplauso e cada reação do público. Se no sábado, dia 7, acontecerá a cerimônia definitiva de despedida dos palcos, a noite de quinta-feira deixou uma lembrança muito particular: a de uma banda que, após 42 anos, ainda consegue provocar o mesmo entusiasmo e a mesma devoção. No fim, entre riffs, rodas, cantoria e emoção, ficou aquilo que nenhuma produção consegue fabricar: a cumplicidade entre banda e público.
Confira as fotos exclusivas do nosso colaborador Anderson Hildebrando:
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Fonte: WikiMetal

























